Nas várias ocasiões em que Madrid visitei
tive vontade de ir ao centro geodésico
ou geográfico —da Península Ibérica— que
não sendo a mesma coisa
a muita gente confunde
Diz a vox populi encontrar-se esse centro geográfico
muito próximo da cidade capital do Reino
por vontade de um monarca
que a Portugal os seus domínios
também estendeu
Na última ida à capital do Estado espanhol
aí rumámos direitinhos ao Cerro de los Ángeles
na municipalidade de Getafe
Detectei o outeiro —porque na paisagem se
destaca—
muito antes de encontrarmos caminho que aí nos
levasse
Lá chegados estive atento
no sentido de encontrar algo
que essa curiosidade geográfica assinalasse
ou mesmo uma pirâmide geodésica
para o caso de o geométrico ou geográfico
se localizar em outro sítio
Ascendendo a pé fui-me apercebendo
que no alto construções religiosas havia
e que a Igreja dessa elevação na paisagem
se aproveitara E nada vi de referências
ao que aí me tinha levado Estava na presença
de um mui católico santuário
onde restos de um monumento
religioso se expunham porque dinamitado
durante a (in)civil guerra
e um outro a substituí-lo
de avantajada volumetria
uma sólida basílica arquitecto-
nicamente mussoliniano-franquista
com uma extensa esplanada
à sua porta onde o bispo discursa
nos dias em que a multidão de acólitos
ali vão depositar as suas esmolas
da peregrinagem para engordar
os cofres do Vaticano
Que decepção e que revolta
a Igreja sempre a Igreja a aproveitar-se
e a sobrepor-se à Cultura e à Ciência
com o beneplácito do Estado
sobretudo do fascista
mas que o democrata tolera.
Ao penetrar na esplanada
por um acesso na vedação
comecei a espremer-me
espremi-me espremi-me
(não demasiado à cautela) e
ruidosa bomba fétida soltei
afinal um valente PEIDO
como vingança
ao embuste em que caíra
Carlos d'Abreu. En Voces del Extremo. Poesía y Emergencia. Ed. Acsal, 2026
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